Trovadorismo: rimas, romance e tretas medievais

Introdução do Trovadorismo

Imagina que você está no século XII, época do Trovadorismo. Você é nobre e tá com uma vontade enorme de se declarar para alguém, mas tá com uma preguiça enorme para isso.

Você não tem celular, internet, mas tem dinheiro… sabe o que você poderia fazer na época? Contratar um trovador para fazer isso por você.

O que é um trovador? Como você contrataria um na época? 

Abaixo serão respondidas algumas dessas questões, pois será explorado o Trovadorismo, uma escola literária cercada de amor e safadeza.

Essa é a primeira parte de uma trilha de conhecimento onde será apresentado todas as escolas literárias de forma simples. 

No futuro, o foco será na ficção científica nacional, mas, antes, é necessário entender o caminho que a literatura percorreu até aqui para depois expandir.

É bom avisar para você consultar as referências desse vídeo na descrição para se aprofundar mais no assunto, principalmente, se for estudar o tema, pois essa publicação não tem o objetivo de ensinar como o Trovadorismo funcionava. 

O são as escolas literárias?

Pensa na literatura como se fosse uma moda ou alguma coisa que muda conforme o tempo. 

Ao longo do passar do tempo, cada época teve um estilo mais presente de se escrever, assim como cada século teve seu jeito de se vestir.

Trovadorismo, Modernismo, Arcadismo, cada escola literária foi um movimento que dominou uma época.

Não significa que teve outros estilos dentro de um período histórico, mas focaremos em estudar essa tendência.

No caso das escolas literárias, o trovadorismo foi o início delas na língua portuguesa. Ela ocorreu na Europa e influenciou produções futuras.

Na época, a galera medieval começou a rimar para conquistar alguém (também para bajular nobres, pois trovadores tinham suas rimas como ganha pão e ajudaram de certa forma a nobreza a ter seus projetos políticos de forma centralizada).

Hora de entender isso um pouco melhor.

O que é o trovadorismo?

Hoje em dia, há diversas músicas românticas, sertanejo por exemplo. 

O trovadorismo pode ser considerado uma forma dessa música romântica só que na idade média.

O será focado nessa escola literária será as letras dessas músicas e o que acontece em volta.

Primeiro, o Trovadorismo foi o primeiro grande movimento literário da língua portuguesa, século XII, e consistia em poemas cantados.

Imagina um cara com uma viola saindo para cantar no meio de um bando de nobres, é isso que um trovador poderia ser na época.

Eles eram os popstars da época. Se hoje há músicas para cada gosto, naquela época o pessoal tinha as cantigas, seriam o que os trovadores cantavam e compunham.

Trovadores

O trovador era o compositor e cantor da própria poesia.

Geralmente, era alguém da nobreza que tinha tempo de sobra para escrever sobre algum aspecto da vida medieval. 

Ou seja, era música de nobre para nobre, pois era quase impossível algum plebeu ter acesso a essas coisas, assim como as mulheres devido a configuração da época. 

Se o trovador era um “artista independente”, também existiam os segrel, que eram espécies de trovadores freelancers, podendo compor e cantar cantigas dos outros. 

E os jograis, que apenas interpretavam as obras de outros.

Agora, gasta um momento aqui, imagina o quanto o povo ficava p da vida ao ver um monte de nobres escrevendo sobre amor impossível, enquanto todo mundo se preocupava com a fome e a peste.

Se você descobrisse isso na época, o que você faria?

1 minuto de silêncio para todos os pobres mortos durante o trovadorismo…

Tipos de cantiga – a playlist medieval

Agora é hora de falar sobre os tipos de cantigas. Assim como temos o pop, sertanejo, trap, dentro do trap, emo trap, trap funk, plug, drill, etc. As cantigas tem diversos estilos também.

Os quatro principais que você vai ouvir falar vão ser:

Cantiga de Amor: um homem idolatrava uma amada e sofria por ela, isso com nem sabendo que o camarada existia. É tipo um gado ou gada de plantão mandando mensagem para alguém que goste e acaba ficando no vácuo.

Exemplo

Martim Soares (Autor)

Ai mia senhor! se eu nom merecesse

a Deus quam muito mal lh’eu mereci,

doutra guisa pensara El de mi,

ca nom que m’em vosso poder metesse;

mais soube-Lh’eu muito mal merecer

e meteu-m’El eno vosso poder,

u eu jamais nunca coita perdesse.

 

E, mia senhor, se m’eu desto temesse,

u primeiro de vós falar oí,

guardara-m’eu de vos veer des i;

mais nom quis Deus que meu mal entendesse

e mostrou-mi o vosso bom parecer,

por mal de mim, e nom m’ar quis valer

El contra vós, nem quis que m’al valesse.

 

E, mia senhor, se eu morte prendesse

aquel primeiro dia em que vos vi

fora meu bem; mais nom quis Deus assi,

ante me fez, por meu mal, que vivesse;

ca me valvera a mim mais de prender

mort’aquel dia que vos fui veer,

que vos eu visse nem vos conhocesse.

(FCSH, 2025)

 

 

Cantiga de Amigo: Diferente da de amor, essa era cantada do ponto de vista feminino, mostrando a saudade e a espera pelo amado.

Essa passa uma vibe de uma nobre esperando por alguém chegar. 

Exemplo

Pero Dornelas (Autor)

Havedes vós, amiga, guisado

de falar vosc’ho’jo meu amigo,

que vem aqui, e bem vo-lo [digo],

por falar vosc’, e traz-vos recado

de rog’, amiga, do voss’amigo

que façades o meu falar migo.

 

E u eu moro já el nom mora,

ca lhe defendi que nom morasse

e, por en catou quem rogasse,

e recado sei que vos traz ora

de rog’, amiga, do voss’amigo

que façades o meu falar migo.

 

Gram sazom há que meu bem demanda

e nunca pôde comigo falar,

e vem ora voss’amigo rogar,

e com recado sei que vos anda

de rog’, amiga, do voss’amigo

que façades o meu falar migo.

(FCSH, 2025)

 

Cantiga de Escárnio: a de escárnio é legal,  porque tem muita ironia nas suas linhas e sempre cutucava alguém sem citar o nome. É tipo você xingar uma pessoa e chamá-la de quarenta apelidos, mas não do nome dela diretamente.

Exemplo:

Estêvão da Guarda (Autor)

A mulher d’Alvar Rodriguez tomou

tal queixume quando s’el foi daquê

e a deixou que, por mal nem por bem,

des que veo, nunca s’a el chegou

nem quer chegar, se del certa nom é,

jurando-lhe ante que, a bôa fé,

nõa a er leixe como a leixou.

 

E o cativo, per poder que há,

nõa pode desta seita partir,

nem per meças nem pela ferir,

ela por en nõa rem nom dá;

mais, se a quer desta sanha tirar,

a bôa fé lhe convém a jurar

que a nom leixe em néum tempo já.

 

Cantiga de Maldizer: essa é a mais interessante para algumas pessoas. Aqui, as alfinetadas são na cara mesmo, sem vaselina, nem cuspe. O trovador vai citar o nome da pessoa e falar alguma coisa sobre, mas nas cantigas de maldizer tem um extra bem quente. 

Os trovadores falavam de coisas mais explícitas nela, como convidar na cara de pau alguém para praticar atos libidinosos.

Exemplo:

Pero Garcia Burgalês (Autor)

Maria Negra, des[a]venturada!

E por que quer tantas pissas comprar,

pois lhe na mão nam querem durar

e h’assi morrem aa malfad[a]?

E num caralho grande que comprou,

o onte ao seráo o esfolou,

e outra pissa tem já amornada.

 

E já ela é probe tornada,

comprando pissas, vedes que ventura!

Pissa que compra pouco lhe dura,

sol que a mete na sa pousada;

ca lhi convém que ali moira entom

de polmeira ou de torcilhom,

ou, per força, fica d’enaguada.

 

Muit’é pera ventura menguada,

de tantas pissas no ano perder,

que compra caras, pois lhe vam morrer;

est’é pola casa molhada

em que as mete, na estrabaria;

[e] pois lhe morrem, a velha sandia

per pissas será em terra deitada.

 

Agora vai alguns tipos de cantigas extras, sem exemplos, apenas por curiosidade, pois há ramificações dos 4 tipos principais de cantiga.

Lai – na Lírica Galego-Portuguesa, composição de matéria de Bretanha, de autor desconhecido, mas atribuída a uma ou várias personagens lendárias dos romances do ciclo bretão-arturiano (FCSH, 2025).

Pastorela – cantiga lírico-narrativa, geralmente dialogada, que descreve um encontro entre um cavaleiro-trovador e uma pastora, num quadro campestre (FCSH, 2025).

Tenção – cantiga em que intervêm dois trovadores, que discutem, em estrofes alternadas, um tema ou uma questão entre si. O primeiro a intervir é considerado, nos manuscritos, o autor da cantiga. O seu interlocutor tem de manter, na sua resposta, o esquema formal proposto na 1ª estrofe (métrico, rimático, etc.); a cada interveniente cabe o mesmo número de estrofes (ou ainda de findas, se a composição as tiver) (FCSH, 2025).

O fim do trovadorismo – e agora?

Dado os tipos de cantigas, é hora de falar como o Trovadorismo chegou ao seu fim. 

De forma simples, chegou o século XV, finalzinho do XIV, e a literatura começou a mudar para dar espaço ao Humanismo, depois o Classicismo e etc.

Sem o hype, os trovadores perderam seu público que começou a se interessar por outros tipos de escrita.

E um aprendizado com as escolas literárias: tudo tem um fim, mas o legado continua de alguma forma.

Até hoje, é possível ver resquícios do Trovadorismo nas músicas, nos poemas românticos e até nas indiretas das redes sociais.

Considerações Finais

De imediato, quando você busca saber sobre uma coisa no passado, principalmente, envolvendo literatura, você pode criar uma barreira muito grande para entrar de cabeça nisso.

Com o trovadorismo não é diferente, essa escola literária é chata de se acompanhar por ser muito antiga. 

Tudo que é fora da época atual é um pouquinho chato de se pesquisar sobre e o que essa publicação visou foi trazer um ar renovado e mais dinâmico para o caso do trovadorismo.

Tentar te influenciar a saber mais sobre o assunto, valorizar a história literária da língua portuguesa, etc. 

Nessa jornada, você acabou encontrando rimas engraçadas, safadas e com um peso amoroso enorme; tudo que pode fazer você tirar um momento de felicidade no seu dia.

Caso queira saber mais sobre o trovadorismo, pode dar uma olhada nas referências. 

Da mesma forma, se quiser saber mais sobre outros assuntos de literatura e ler alguns contos de graça, veja as publicações deste site, Excamosh.

Por enquanto, que tal tentar escrever uma cantiga para seu amor?

Referências

BARROS, JOSÉ D’ASSUNÇÃO. O trovadorismo medieval ibérico e a violência simbólica. [S. l.]: Redalyc, 2024. Disponível em: link Acesso em: 18 mar. 2025.

FCSH, Cantigas. Cantigas Medievais Galego-Portuguesas. [S. l.]: FCSH, 2025. Disponível em: Cantigas Medievais Galego-Portuguesas. Acesso em: 18 mar. 2025.

FERNANDES, Márcia. Trovadorismo. [S. l.]: Toda Matéria, 2024. Disponível em: Trovadorismo: o que é e suas características (com exemplos de cantigas) – Toda Matéria Acesso em: 18 mar. 2025.

GOMES, Agiane da Penha et al. A CONTEMPORANEIDADE DO TROVADORISMO. [S. l.]: Centro Universitário São Camilo, 2014. Disponível em: Microsoft Word – A Contemporaneidade do Trovadorismo Acesso em: 18 mar. 2025.

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