Estação Cemitério

Kevin foi mandado para sua última missão de controle de mitos: a Estação Cemitério. Ninguém havia retornado antes, e as quase oito mortes do jovem mantinham essa crença intacta até então.

Meu garoto, termina de exterminar as almas penadas, volta para o presente, fazemos um churrasco e sucesso. Nada de ter que voltar para o Egito Antigo e enfrentar um deus ou um leprechaun bêbado na multidão. Nunca mais. 

Escorado em um assento, Kevin lia a última mensagem deixada pelo pai em sua rede neural. Infelizmente, não poderia respondê-la — por diversos motivos. Um deles era que estava contando os últimos frascos de retorno no tempo que possuía.

“Um… dois… apenas dois!”, pensou, socando o chão do trem que o levava a missão. “Dessa vez eu consigo. Tenho certeza.”

Após guardar frascos de líquido azul brilhante, verificou se o seu relógio de pulso estava intacto, caso precisasse reiniciar a missão. Tudo nos conformes. Restava apenas esperar o trem parar, deixar a primeira onda das almas penadas vir e aprender com os erros anteriores.

Levantou-se, abriu a janela do vagão e contou nos dedos os segundos até que os freios se ativassem. Era a única chance de chegar à Estação Cemitério: pular em movimento.

A ideia de construir uma linha férrea que terminava em um cemitério foi tão mal recebida que sequer terminaram os trilhos, resultando em um trem que despencava em um buraco gigantesco.

Sem ter sido avisado, Kevin caiu com o trem em sua primeira tentativa e precisou usar um frasco temporal para não morrer.

Nhhhrriii!

Ouviu o barulho dos freios e abriu as portas do vagão. Precisou de esforço extra, já que tudo estava enferrujado, sustentado apenas por uma aura fantasmagórica. Respirando fundo, tomou distância e pulou antes do ponto onde os passageiros deveriam desembarcar. Caiu em uma moita.

— Santo amado! — assustou.

Um galho pontiagudo roçava seu rosto. Se tivesse pulado um pouco depois, teria virado espetinho e sequer poderia usar um frasco temporal.

Sem tempo para encarar o galho, Kevin ergueu-se e posicionou os braços à frente. Caso fosse atacado, usaria os poderes do relógio para lançar raios de choque letais e alguns truques extras. Mirou para a esquerda, para a direita, quase torceu o pescoço — mas não viu nem ouviu nada além do vento batendo nas folhas.

Silêncio…

Mas isso estava longe de ser um ponto positivo. As almas penadas surgiam quando menos se esperava. Suas quase mortes o haviam ensinado bem.

Esfregando as mãos, seu corpo começou a emitir um brilho azul-neon. Desferiu um golpe eletrizante contra o solo. Mesmo sendo terra, nenhuma criatura subterrânea resistiria. Seus poderes eram muito mais do que apenas eletricidade.

Com o choque, diversas mãos se ergueram. Joias de uma vida passada, ternos esfarrapados e peles em decomposição surgiram do chão. Almas penadas, prontas para capturar qualquer vibração.

— Nada de surpresas por aqui. — Preparou outro golpe. Dessa vez, mirando em direção nas ameaças visíveis.

A onda de choque as incinerou e as reduziu a pó. Kevin sorriu, aliviado: não eram fortes em combate. O problema eram as armadilhas mortais, que surgiam do nada, como acompanhadas por um estalo de galho.

— Não! 

Uma alma penada saltou de uma árvore e caiu sobre ele. Conseguiu empurrá-la e finalizá-la com um chute eletrificado, mas não a tempo de evitar a mordida em seu ombro.

Em menos de um minuto, ele se transformaria em uma alma penada.

Desesperado, tentou acionar nanomédicos para conter a infecção. Inútil, ineficaz, não deveria ter feito. A única saída era usar um frasco temporal em uma pequena entrada do seu relógio.

Com esforço, abriu um portal em sua frente para o início da missão, dentro do vagão.

Queria ter utilizado para voltar para sua época. Se fizesse isso, apenas seria preso por não ter finalizado sua missão e poderia esquecer o churrasco com o pai.

Ao atravessar, sentiu-se renovado. A consciência e as memórias eram as mesmas, mas seu corpo estava tinindo.

“Última tentativa.” Estava escorado novamente no assento, agora com apenas um frasco que o levaria de volta ao seu tempo. Sem margem ou vírgula para erros. “Vou ter que fazer aquela loucura de novo.” Coçou o cabelo.

Queria repetir a tentativa mais arriscada: pular diretamente no desembarque dos passageiros, caminho mais curto para a igreja central. Deu certo… até certo ponto em algumas de suas tentativas.

Em uma delas, quebrou a perna assim que pousou no chão, em uma outra, não conseguiu chegar tão perto quanto queria do altar.

“Que se lasque!!!”

Assim que avistou a plataforma, saltou com um golpe elétrico carregado. Criaturas dormiam em bancos e no chão; todas foram despertadas e fulminadas pela descarga.

Ao mesmo tempo, as luzes da estação acenderam-se, juntando-se aos brilhos de vagalumes. Um instante de paz, logo quebrado pelo som de correria.

Almas penadas desciam pelas escadas da estação. Kevim já conheceu esse cenário. Havia duas passagens, e ele fechou uma desmoronando-a com seus poderes. Restava apenas a principal, já tomada por hordas.

Preparando mais um golpe, mirou em um corrimão e a corrente se alastrou por todos os inimigos alinhados. 

Sem perder tempo, Kevin se apressou para subir as escadas e conseguiu ver uma cruz que marcava a entrada da igreja cercada por diversos túmulos abertos.

Se a cruz estivesse no alto da igreja, o jovem ficaria despreocupado com ela, mas não era o caso. Ela estava sendo segurada por uma criatura colossal, musculosa como uma geladeira de duas portas: uma alma penada aditivada.

Kevin já a tinha enfrentado duas vezes e perdido ambas.

— Round três? — Avançou.

Com certa pressa, eliminou inimigos menores pelo caminho, mas o cansaço pesou logo. Seu poder vinha de dentro, o relógio era apenas o canal. Restava energia para um último ataque em área e três disparos direcionados.

Enquanto desviava de mordidas banguelas, a alma penada aditivada arrastava a cruz e avançava, esmagando aliados pelo caminho e colocando pavor no jovem. 

Sem escolhas, Kevin usou seu último golpe de área. Diversas almas penadas queimaram e a da cruz cambaleou e largou a cruz por um instante.

Foi a brecha perfeita. 

Ele disparou dois feixes em formato de ponteiros de relógio contra os olhos do inimigo principal. Ao redor da criatura, os ponteiros orbitaram até que um estrondo de relógio ecoou. Era a técnica mais poderosa de Kevin: sacrificar anos de sua vida para controlar o tempo de morte alheio.

A alma penada já estava passando da data de validade, então o golpe apenas completou o serviço de deterioração e ela ficou abaixo da cruz.

“Deu certo”, pensou, refletindo sobre derrotas anteriores.

Infelizmente, a comemoração durou pouco. Novas hordas emergiram dos túmulos. Kevin correu, sem energia para outro ataque em área. Sua última chance era chegar à igreja e disparar contra o altar.

Abriu caminho na base do soco e alcançou a porta enferrujada da igreja. Empurrou com força, até conseguir uma brecha. Lá dentro, viu almas penadas até nos lustres e bancos, todas preparadas para emboscá-lo e tirar um pedaço do seu cérebro.

Sem entrar, disparou através da abertura.

Zap!

O ponteiro temporal atingiu o altar — não de pedra, mas uma massa de carne pulsante formada por mutações das próprias almas.

Acreditando que havia vencido, usou o último frasco para abrir o portal rumo a sua casa.

— Acabou… — Ele deu um passo para trás, mas parou. 

Apenas começou. 

As almas penadas, em vez de desaparecerem, se fundiram ao altar e o regeneraram. Kevin estava sem poderes, sem frascos, sem saída, sem esperança.

Caiu de joelhos diante da porta do portal. Seu pai veio à mente, o cheiro do churrasco prometido, e pediu desculpas.

Esperou o ataque fatal. Mas as criaturas, famintas por magia e carne, foram atraídas pelo portal. Uma após outra, atravessaram-no. Até mesmo uma nova alma penada aditivada ergueu-se e seguiu para dentro dele.

Kevin tentou impedir sobrecarregando o relógio. Nada adiantou. Foi dilacerado pelas garras e dentes inimigos. 

Não era só seu fim, mas também o fim de todos que ele um dia conheceu.

Kevin realmente foi mandado para sua última missão de controle de mitos. Ele não voltou, mas diversas almas penadas retornaram ao futuro — prontas para iniciar um apocalipse.

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